quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Especial dia do Professor - Educação

O professor

Lélia Bergesch Barth (*)

Estamos no século XXI, denominado o da globalização e da informação, mas o sistema educacional brasileiro continua o mesmo desde o início do século XX. O pouco investimento na educação deixou escolas precárias, recursos escassos e professores mal remunerados.

As escolas, os alunos, os métodos, os projetos, os recursos tecnológicos passaram a ser centro de interesse da política pedagógica vigente, enquanto os profissionais em educação estão sobrecarregados de responsabilidades e relegados a um segundo plano.

É bastante comum observar escolas depredadas, com vidros quebrados, carteiras e cadeiras danificadas, sujas, e cortinas rasgadas. Esses pequenos atos a transformam num ambiente hostil. Será que nossas autoridades ainda não se deram conta de que nossas crianças e jovens querem mais, ou seja, ambientes condizentes com a atualidade e professores valorizados, realizados, felizes, com perspectivas de um futuro melhor?

E se a escola for um local com mais recursos e profissionais valorizados e respeitados, os alunos conseguirão superar melhor suas limitações emocionais e afetivas, e assim também terão esperança de dias melhores.

O trabalho do professor é através da mediação afetiva. Ele é cuidador dos alunos. Ele precisa de satisfação, respeito e reconhecimento para poder suprir todas as suas necessidades afetivas e materiais. Mas a sociedade de hoje exige dele a perfeição, e ele não recebe o devido valor.

A sociedade deve exigir competência dos professores, mas também valorizá-los muito mais através do respeito, exigir dele apenas o que é atributo seu: ensinar, pois observamos, hoje, que exigem dele ações além dos limites humanos, ou seja, cuidar, ensinar, motivar, compreender a todos os alunos de uma turma de 35 ou mais, oriundos de universos diferentes, com necessidades, cultura e valores diversos. Por um lado, os alunos não encontram a escola que sonham e se frustram; por outro, os professores que não conseguem suprir os anseios dos educandos sofrem, pois sabem que o exercício de qualquer profissão deve ser fonte de gratificação e reconhecimento.

De que adianta educadores e pedagogos indicarem receitas prontas se eles não encaram a sala de aula no dia-a-dia, assumindo inteiramente "uma classe de alunos com problemas psicológicos, emocionais e afetivos, não um ou dois, mas quase todos"? (relato de uma professora de 4ª série de uma escola estadual da região).

Esperamos que, num futuro bem próximo, os nossos mandatários sejam pessoas mais conscientes e comprometidas com a educação, pois uma nação que valoriza seus educadores, que prioriza a educação através da alta qualificação dos docentes, salário digno com a responsabilidade, e escolas no padrão atual, em termos de estrutura física, tecnologia e recursos humanos, está investindo num futuro com menos violência e menos corrupção.


(*) professora do Colégio Estadual Presidente Castelo Branco - Lajeado / RS



Educação: entre a retórica e a realidade

João Roberto A. Neves (*)

Recentemente, o ministro da Educação, Fernando Haddad, na solenidade de lançamento do Índice Geral de Cursos, com a retórica habitual dos que desconhecem certos ensinamentos eivados de bom senso contidos em uma obra do abade Joseph Antoine Toussaint Dinouart, de 1771, intitulada A Arte de Calar, referindo-se ao descredenciamento de universidades, asseverou em alto e bom som que "no limite, as instituições mal avaliadas poderão ser descredenciadas".

Esqueceu o ministro, no entanto, de lembrar alguns detalhes significativos. Desde 1996, com a edição da Lei de Diretrizes e Bases, existe a obrigatoriedade de todas as instituições educacionais superiores serem avaliadas em processos periódicos de credenciamento, que analisam o projeto pedagógico, qualidade do corpo docente, etc. Posteriormente, uma norma fixou em cinco anos o prazo para a obtenção do recredenciamento, quando os dados são reapresentados. As instituições que não conseguem o recredenciamento não podem abrir turmas.

As instituições superiores criadas antes de 1996 negam-se a fazer o recredenciamento, sob o argumento de que a norma referida alhures é posterior à data de suas fundações. Existe o caso de uma universidade com sede no Rio de Janeiro que está há 33 anos sem recredenciamento. Uma Ação Direta de Inconstitucionalidade tramitando no Supremo Tribunal Federal vai definir essa questão. Interessante é que em 2004, já na gestão do presidente Lula da Silva, foi editada mais uma normazinha, dessa vez para determinar que a renovação só possa ser efetivada após a finalização do Sinaes, sistema de avaliação de ensino criado pelo atual governo, na prática um emaranhado de procedimentos burocráticos que protela o recredenciamento.

Enquanto isso, todos perdem, menos os empresários. Existem casos absurdos, como por exemplo o de um ex-aluno de uma famosa universidade particular da capital paulista que passou no exame da OAB em 1999 mas não obteve sua inscrição porque a essa época o curso de Direito não era reconhecido pelo MEC, fato esse que ensejou o ajuizamento de uma ação indenizatória contra a universidade, recentemente julgada em grau de recurso pelo Superior Tribunal de Justiça.

Os notáveis da educação tupiniquim, tão criativos em seus discursos, bem que podiam deixar de tentar reinventar a roda e implementar o modelo adotado na Finlândia, onde a educação, considerada a melhor do mundo, é gratuita da pré-escola ao doutorado. Só o país ganharia.

(*) advogado

Um comentário:

Anônimo disse...

A realidade do cenário educacional do Brasil não é como uma pintura bonita. Tem muitos problemas, mas também tem muita gente que acredita que essa pintura pode ser refeita (a exemplo de Lélia) e que não desiste. Metade do problema estaria resolvido com um respeito significativo entre alunos e professores (coisa muito difícil, pois os alunos não respeitam seus pais que dirá seus professores). Resgatar alguns valores tradicionais das relações humanas como cortesia e gentileza seria um bom começo.
Parabéns professores. Persistam pois precisamos de vocês!